Tratamentos
Câncer de reto: diagnóstico e tratamento
Resposta curta: o câncer de reto é um tumor maligno do reto, a parte final do intestino grosso, logo acima do ânus. O diagnóstico é confirmado pela biópsia (retirada de um pequeno pedaço de tecido para análise no laboratório) feita na colonoscopia, o exame que examina todo o intestino grosso por dentro com uma câmera. A ressonância magnética da pelve mostra até onde o tumor chegou. O tratamento pode combinar cirurgia, radioterapia e quimioterapia em ordens diferentes, conforme o caso. Ele é decidido em equipe e com o paciente. Em parte das pessoas é possível preservar o ânus e, em casos selecionados, até o reto.
O que é o reto e por que esse câncer tem página própria
O reto fica dentro da pelve, perto da bexiga, da próstata ou do útero e da vagina. Muito perto dele passam os nervos que comandam a bexiga e a função sexual. Por estar nesse espaço estreito e tão perto do ânus, o tratamento do câncer de reto é diferente do tratamento do câncer de cólon.
O câncer de ânus é outra doença, com tratamento principal diferente: em geral, a quimiorradioterapia, tratamento que combina quimioterapia e radioterapia. Ele tem página própria: Câncer de ânus.
Sintomas
Os sinais que podem levar à investigação incluem sangue nas fezes ou pelo ânus, mudança no funcionamento do intestino, perda de peso sem explicação e anemia (queda das células vermelhas do sangue, muitas vezes por falta de ferro).
Nenhum desses sinais é exclusivo do câncer. Num levantamento de vários estudos com pessoas de 50 anos ou mais que procuraram o médico por sangramento pelo ânus, a maioria tinha outra causa. Mesmo assim, o sangramento e a anemia devem ser investigados, mesmo se não estiverem associados a outros sintomas. A falta de outros sintomas não exclui o câncer. Sangramento junto com perda de peso ou com mudança do hábito intestinal aumenta a chance de haver um tumor.
Como é feito o diagnóstico
- Colonoscopia com biópsia: confirma o diagnóstico e examina o restante do intestino.
- Testes no material da biópsia: um deles, recomendado em todos os casos, identifica um tipo de tumor com uma alteração específica. Nesses tumores, o tratamento pode ser diferente, inclusive com medicações de imunoterapia, conduzidas pelo oncologista clínico.
- Ressonância da pelve: é recomendada em todos os casos. Mostra a altura do tumor, quanto ele entrou na parede e, principalmente, a distância entre o tumor e a fáscia mesorretal, a camada que envolve o reto e o tecido em volta dele. Num grande estudo, essa distância foi o dado dos exames que melhor indicou o risco de recidiva, a volta da doença depois do tratamento. Ela orienta a escolha do tratamento. A ressonância foi mais precisa para avaliar essa margem do que o toque retal, exame em que o médico examina o canal anal e o reto com o dedo, com luva e lubrificante.
- Tomografia do tórax e do abdome: procura metástases. Metástase é quando o câncer se espalha para outro órgão, como o fígado.
As opções de tratamento
O plano é decidido desde o diagnóstico por uma equipe que reúne cirurgião, oncologista clínico, radioterapeuta, radiologista e patologista. Ele depende da altura do tumor, do que a ressonância mostra, da saúde da pessoa e do que ela deseja depois de entender as opções.
Cirurgia como primeiro passo
Em tumores iniciais e nos tumores da parte mais alta do reto, a cirurgia pode ser o primeiro tratamento.
Tratamento neoadjuvante
Em muitos casos, o tratamento começa antes da cirurgia, com radioterapia, quimioterapia ou as duas. É o chamado tratamento neoadjuvante. Os grandes estudos mostraram que esse tratamento:
- diminui o risco de recidiva local, ou seja, do tumor voltar na pelve;
- nos tumores de maior risco, diminui o risco de metástase;
- aumenta a chance de o tumor desaparecer, o que, em parte dos casos, permite preservar o ânus ou até o reto.
Esse tratamento também tem riscos. Num dos estudos, efeitos colaterais graves durante o tratamento neoadjuvante aconteceram em cerca de 48% dos pacientes, contra cerca de 25% com o tratamento tradicional, com mais diarreia e mais neuropatia (alteração da sensibilidade nos nervos das mãos e dos pés). No outro, houve mais casos de um segundo câncer no acompanhamento longo. A radioterapia também aumenta o risco de complicações da ferida quando o ânus precisa ser retirado. Ela se associa, ainda, a pior funcionamento do intestino depois da cirurgia.
Também podem ficar efeitos de longo prazo do conjunto do tratamento (cirurgia, radioterapia e quimioterapia), como dor crônica, alterações do funcionamento do intestino, alterações sexuais, infertilidade e neuropatia. Eles são conversados antes do tratamento.
A radioterapia pode ser curta, em uma semana, ou longa, em cerca de cinco semanas. A escolha é feita caso a caso, na reunião da equipe.
A cirurgia
A operação retira a parte doente do reto junto com o tecido gorduroso que o envolve, chamado mesorreto, onde ficam os linfonodos da região, pequenos órgãos de defesa do corpo, conhecidos como gânglios ou ínguas, para onde o câncer pode se espalhar. Retirar esse tecido inteiro, sem rompê-lo, diminui o risco de recidiva: num estudo, quando ele saiu incompleto, houve recidiva em cerca de 36% dos pacientes, contra cerca de 20% quando saiu completo.
Quando possível, o intestino é emendado e o ânus é preservado. Essa emenda é a anastomose, feita entre as duas partes do intestino que restaram (veja Preservação do ânus no câncer de reto). Quando a anastomose fica muito próxima do ânus, pode ser feita uma ileostomia de proteção: uma ileostomia (estoma feito com o íleo, o final do intestino delgado) temporária, que evita que as fezes passem pela anastomose enquanto ela cicatriza.
Quando o tumor está muito baixo ou atinge o esfíncter anal (o músculo em anel que fecha o ânus e ajuda a segurar fezes e gases), pode ser preciso retirar o ânus. Nesse caso, fica uma colostomia definitiva, um estoma feito com o intestino grosso. Estoma é a abertura do intestino na pele do abdome, por onde as fezes saem para uma bolsa coletora (veja Câncer de reto e bolsa de colostomia).
A cirurgia pode ser feita de forma aberta ou por via minimamente invasiva. A via minimamente invasiva reúne a laparoscopia (cirurgia por vídeo, feita por pequenas incisões, os cortes feitos na pele para a cirurgia, com câmera e instrumentos finos) e a cirurgia robótica (uma forma de cirurgia por vídeo em que o cirurgião comanda os instrumentos por um console). Nos estudos, o controle do câncer foi semelhante entre as vias. A escolha depende do caso e da experiência da equipe.
Preservar o reto em casos selecionados
Quando o tumor desaparece com o tratamento neoadjuvante, uma opção é o watch and wait: acompanhamento de perto, sem operar, de tumores do reto que desaparecem depois do tratamento, com exames a cada poucos meses. Em parte das pessoas acompanhadas assim, há recidiva; na maioria das vezes, ainda é possível operar. Quando há recidiva, o risco de metástase é maior. Essa estratégia não serve para todos e deve ser feita por equipe com experiência nesse acompanhamento. Os detalhes estão em Preservação do ânus no câncer de reto.
O que esperar: riscos da cirurgia
A cirurgia do câncer de reto é uma operação grande. Num levantamento com dezenas de milhares de pacientes:
- houve vazamento da anastomose em cerca de 11% das pessoas que tiveram anastomose;
- houve infecção dentro da pelve em cerca de 12%;
- houve infecção da ferida em cerca de 7%;
- a morte aconteceu em cerca de 2%, com queda nos anos mais recentes.
Funcionamento do intestino: depois da cirurgia com anastomose, o intestino pode funcionar diferente, com vontade urgente de evacuar, várias idas seguidas ao banheiro e incontinência, ou seja, perda do controle de gases ou fezes. Num estudo brasileiro com pacientes operados com preservação do ânus, cerca de 33% tinham esses sintomas de forma importante. Eles foram mais frequentes depois da radioterapia e nos tumores mais baixos. Em outro estudo, a continência fecal (a capacidade de segurar fezes e gases) ainda não tinha voltado ao que era antes da cirurgia 2 anos depois, tanto por laparoscopia como por cirurgia robótica.
Função urinária e sexual: os nervos que comandam a bexiga e a função sexual passam muito perto do reto. A cirurgia procura preservá-los, mas alterações urinárias e sexuais podem acontecer.
O risco de cada pessoa depende da idade, de outras doenças, da altura do tumor e do tratamento feito antes. Esse risco é conversado antes da operação.
Como a decisão é tomada
O plano é feito por uma equipe que trabalha junto desde o diagnóstico. Na escolha, pesam a altura do tumor, o que a ressonância mostra, a saúde da pessoa e os benefícios e riscos de cada opção (operar primeiro, fazer o tratamento neoadjuvante, preservar o ânus ou o reto). Cada opção é explicada ao paciente antes do tratamento. A decisão é tomada em conjunto.
Buscar uma segunda opinião antes de começar o tratamento é um direito do paciente. Veja Segunda opinião em câncer de intestino e de reto.
Perguntas frequentes
Para entender
Leia também: Câncer de ânus | Câncer de intestino (cólon) | Preservação do ânus no câncer de reto | Câncer de reto e bolsa de colostomia | Ileostomia de proteção | Segunda opinião | Sobre o Dr. Lucas Gerbasi
- Como detectar e prevenir o câncer colorretal: o papel do rastreamento
- Quando a colostomia é necessária? Indicações e cuidados após a cirurgia
- Cirurgia robótica no câncer colorretal: o que a evidência mostra
- Artigos publicados
Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individual.
- Hofheinz RD, et al. Ann Oncol. 2025;36(9):1007-24. doi:10.1016/j.annonc.2025.05.528
- Astin M, et al. Br J Gen Pract. 2011;61(586):e231-43. doi:10.3399/bjgp11X572427
- Argilés G, et al. Ann Oncol. 2020;31(10):1291-305. doi:10.1016/j.annonc.2020.06.022
- Rao S, et al. Ann Oncol. 2021;32(9):1087-100. doi:10.1016/j.annonc.2021.06.015
- MERCURY Study Group. BMJ. 2006;333(7572):779. doi:10.1136/bmj.38937.646400.55
- Taylor FGM, et al. J Clin Oncol. 2014;32(1):34-43. doi:10.1200/JCO.2012.45.3258
- Taylor FGM, et al. Ann Surg. 2011;253(4):711-9. doi:10.1097/SLA.0b013e31820b8d52
- Ruppert R, et al. Br J Surg. 2018;105(11):1519-29. doi:10.1002/bjs.10879
- Ruppert R, et al. J Am Coll Surg. 2020;231(4):413-25.e2. doi:10.1016/j.jamcollsurg.2020.06.023
- Kapiteijn E, et al. N Engl J Med. 2001;345(9):638-46. doi:10.1056/NEJMoa010580
- Sauer R, et al. N Engl J Med. 2004;351(17):1731-40. doi:10.1056/NEJMoa040694
- Bahadoer RR, et al. Lancet Oncol. 2021;22(1):29-42. doi:10.1016/S1470-2045(20)30555-6
- Dijkstra EA, et al. Ann Surg. 2023;278(4):e766-72. doi:10.1097/SLA.0000000000005799
- Conroy T, et al. Lancet Oncol. 2021;22(5):702-15. doi:10.1016/S1470-2045(21)00079-6
- Conroy T, et al. Ann Oncol. 2024;35(10):873-81. doi:10.1016/j.annonc.2024.06.019
- Jin J, et al. J Clin Oncol. 2022;40(15):1681-92. doi:10.1200/JCO.21.01667
- Heald RJ, Ryall RD. Lancet. 1986;1(8496):1479-82. doi:10.1016/s0140-6736(86)91510-2
- On J, Aly EH. Int J Colorectal Dis. 2018;33(9):1159-68. doi:10.1007/s00384-018-3116-5
- Nagtegaal ID, et al. J Clin Oncol. 2002;20(7):1729-34. doi:10.1200/JCO.2002.07.010
- Phan K, et al. J Gastrointest Oncol. 2019;10(2):179-87. doi:10.21037/jgo.2018.11.07
- Paun BC, et al. Ann Surg. 2010;251(5):807-18. doi:10.1097/SLA.0b013e3181dae4ed
- Buzatti KCLR, et al. Ann Coloproctol. 2023;39(5):402-9. doi:10.3393/ac.2022.00136.0019
- Park JS, et al. Ann Surg. 2023;278(1):31-8. doi:10.1097/SLA.0000000000005788
- Kinugasa Y, et al. Dis Colon Rectum. 2006;49(7):1024-32. doi:10.1007/s10350-006-0557-7
- Clausen N, et al. World J Surg. 2008;32(8):1768-75. doi:10.1007/s00268-008-9625-6
- Smith JJ, et al. JAMA Oncol. 2019;5(4):e185896. doi:10.1001/jamaoncol.2018.5896
- Fernandez LM, et al. J Clin Oncol. 2025;43(14):1663-72. doi:10.1200/JCO.24.00405
- Archampong D, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2012;(3):CD005391. doi:10.1002/14651858.CD005391.pub3
- Ho J, et al. BJS Open. 2026;10(3):zrag074. doi:10.1093/bjsopen/zrag074