Dr. Lucas Gerbasi, coloproctologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo

Para entender

Caroço no ânus: o que pode ser

Resposta curta: um caroço no ânus, que os médicos chamam de nódulo, tem várias causas possíveis. Entre as causas estão a trombose hemorroidária (um coágulo dentro de uma hemorroida), o abscesso anal, a hemorroida em prolapso, o plicoma (uma prega de pele na borda do ânus) e o condiloma (uma verruga causada pelo HPV, o papilomavírus humano), além de outras lesões, inclusive o câncer de ânus. A aparência engana: a causa é definida no exame físico. Caroço com dor forte, febre ou que cresce, sangra ou não desaparece merece avaliação médica.

Por que o exame decide

Várias doenças diferentes podem formar um caroço na mesma região. Algumas se parecem muito à primeira vista. A diretriz americana de abscesso e fístula, por exemplo, lista entre as doenças que podem ser confundidas com o abscesso a fissura anal, a trombose hemorroidária, a doença pilonidal, a hidradenite (inflamação de glândulas da pele), tumores, a doença de Crohn e infecções sexualmente transmissíveis.

Por isso, o diagnóstico depende de conversar sobre os sintomas e examinar o local. Em muitos casos, o exame inclui a anuscopia, um exame feito no consultório com um pequeno tubo que permite ver o canal anal. O pudor é compreensível; o exame é rápido e é ele que permite separar o que pode esperar do que precisa ser tratado logo.

As principais causas

Desenho esquemático do canal anal em corte, indicando onde ficam a hemorroida interna, a hemorroida externa com trombose, o abscesso, o plicoma e o condiloma.

Caroço no ânus: o que faz pensar em cada causa

CausaO que faz pensar nela
Trombose hemorroidárianódulo doloroso na borda do ânus, que não volta para dentro
Abscesso analdor e inchaço perto do ânus; febre e saída de pus são menos frequentes; o abscesso profundo pode doer, às vezes sem caroço visível
Hemorroida interna em prolapsovolume que sai pelo ânus
Plicomaprega de pele na borda do ânus; pode acompanhar uma fissura anal crônica ou a doença de Crohn
Condilomaverrugas na região anal
Câncer de ânuscaroço ou ferida que não cicatriza, sangramento, dor ou coceira; o sangramento muitas vezes é atribuído às hemorroidas

Fontes do quadro: diretriz americana de hemorroidas (Hawkins, 2024); diretriz americana de abscesso e fístula (Gaertner, 2022); atualização da Associação Americana de Gastroenterologia sobre hemorroidas (Qureshi, 2026); diretriz americana de fissura anal (Davids, 2023); diretriz europeia de verrugas anogenitais (Gilson, 2020); diretriz europeia de câncer de ânus (Rao, 2021).

Trombose hemorroidária. É um coágulo que se forma dentro de uma hemorroida. Quando acontece numa hemorroida externa, forma um nódulo doloroso e palpável na borda do ânus, que não volta para dentro. Costuma aparecer de repente e doer bastante nos primeiros dias.

A trombose costuma melhorar sem cirurgia. Num estudo com 231 pacientes que escolheram entre operar ou não, o tempo até a resolução dos sintomas foi de 24 dias com o tratamento clínico e de 3,9 dias com a cirurgia, que foi quase sempre a retirada da trombose junto com o vaso associado a ela. Nesse estudo e em uma metanálise de 6 estudos, com 851 pacientes, quem operou teve menos retorno da trombose. Esses números, porém, não permitem dizer que a cirurgia é superior. O tratamento clínico é a opção inicial. Quem foi operado já era escolhido de outro jeito: no estudo de 231 pacientes, chegava com mais dor. A maioria dos estudos da metanálise não sorteou o tratamento. Com grupos diferentes desde o início, a comparação não é justa. Os próprios autores do estudo aceitam começar pelo tratamento clínico na primeira trombose, sobretudo quando a dor está melhorando.

Na prática, as duas opções são válidas e a escolha depende da dor e do tempo de sintomas. Na trombose da hemorroida externa, a retirada é a excisão local do nódulo trombosado, um procedimento pequeno, que pode ser feito com anestesia local e, em geral, nos primeiros dias, cerca de 72 horas depois do início dos sintomas. Ela é diferente da simples incisão para tirar o coágulo e também da hemorroidectomia, a cirurgia formal que retira as hemorroidas. Um consenso de cirurgiões de Taiwan considera que a trombose da hemorroida externa volta menos depois da excisão que depois da incisão simples. A diretriz americana de cirurgiões de cólon e reto considera que pacientes selecionados com trombose da hemorroida externa podem se beneficiar da retirada precoce. Depois desse prazo, a retirada pode até aumentar a dor. Por isso, quem tem um caroço doloroso de início recente pode se beneficiar de uma avaliação nos primeiros dias. A decisão é tomada em conjunto, considerando a dor, o tempo desde o início e a preferência do paciente. Quando a hemorroida interna sai pelo ânus e fica presa, com trombose associada, o caso é diferente e é avaliado na urgência.

Abscesso anal. É um acúmulo de pus perto do ânus, em geral a partir de uma pequena glândula do canal anal. Causa dor e inchaço; febre e saída espontânea de pus são menos frequentes. Os abscessos mais profundos podem causar dor no períneo, na região lombar ou nas nádegas, às vezes sem caroço visível. O tratamento é a drenagem, feita sem demora. Depois de um abscesso, parte dos pacientes pode desenvolver uma fístula anal, um trajeto anormal que liga o interior do canal anal à pele ao redor e que se forma a partir do trajeto que o abscesso percorreu até a pele; esse assunto está na página de abscesso e fístula.

Hemorroida em prolapso. Prolapso é quando as hemorroidas saem para fora do ânus. Hemorroidas são estruturas normais do canal anal, almofadas formadas por vasos, músculo e tecido de sustentação (coxins vasculares), que ajudam a fechar o ânus; a doença hemorroidária é quando elas causam sintomas, entre eles o prolapso. O tratamento depende do grau e é discutido na página de hemorroidas.

Plicoma. Pode ficar depois de uma doença hemorroidária externa de longa data ou de uma trombose antiga. Também acompanha a fissura anal crônica, a ferida que não cicatriza no canal anal, como o chamado plicoma sentinela. A atualização de 2026 da Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) considera que, em geral, o plicoma é inofensivo e não precisa ser retirado. A mesma atualização registra que o plicoma é frequente na doença de Crohn, uma doença inflamatória do intestino. Por isso, um paciente jovem com plicoma e dor abdominal ou diarreia merece avaliação para afastar a doença de Crohn. O consenso de Taiwan sobre hemorroidas considera a retirada quando o plicoma é grande o bastante para causar irritação da pele, coceira, dor ou dificuldade de higiene. Se houver dor ao evacuar junto com o plicoma, vale investigar uma fissura.

Condiloma. É uma verruga na região anal ou genital causada pelo HPV; segundo a diretriz europeia, os tipos 6 e 11 do vírus causam mais de 95% das verrugas anogenitais. As verrugas pedem avaliação e têm tratamento próprio, descrito na página de HPV anal e condiloma.

Câncer de ânus. É o motivo pelo qual um caroço que não desaparece não deve ser atribuído às hemorroidas sem exame. A diretriz europeia de câncer de ânus registra que ele costuma se manifestar com sangramento e que o diagnóstico pode atrasar porque o sangramento é atribuído às hemorroidas. Ele também pode se manifestar como caroço, ferida que não cicatriza, dor, coceira ou secreção. A mesma diretriz considera o toque retal essencial para detectar as lesões do ânus.

Quando procurar avaliação

Alguns sinais pedem avaliação médica:

  • Dor forte de início recente, que pode ser uma trombose: avaliar nos primeiros dias permite decidir com calma entre tratamento clínico e retirada.
  • Dor com inchaço, vermelhidão ou febre, que pode ser um abscesso e precisa de drenagem sem demora.
  • Caroço que cresce, sangra ou forma uma ferida que não cicatriza.
  • Caroço que não desaparece, mesmo que não doa.
  • Verrugas na região anal.

Febre com dor intensa no ânus não deve esperar a consulta: nesse caso, o indicado é procurar um pronto-socorro.

Perguntas frequentes

Pode. Por ser confundido com doenças benignas, como as hemorroidas, um caroço que não desaparece merece avaliação médica. O câncer de ânus pode se manifestar como caroço, ferida que não cicatriza ou sangramento. O toque retal faz parte do exame.

Na borda do ânus, uma das causas possíveis é a trombose hemorroidária, um coágulo dentro de uma hemorroida. Se a dor vier com inchaço que aumenta, vermelhidão ou febre, pode ser um abscesso. As duas situações merecem avaliação nos primeiros dias.

A trombose costuma melhorar sem cirurgia: num estudo, o tempo até a resolução dos sintomas foi de 24 dias com o tratamento clínico. O abscesso não deve esperar: o tratamento é a drenagem sem demora. Como não dá para saber a causa sem exame, a orientação é avaliar antes de esperar.

Na maioria dos casos, não. A retirada é considerada quando o plicoma causa irritação, coceira, dor ou dificuldade de higiene. Ele pode acompanhar uma fissura anal, que tem tratamento próprio, ou a doença de Crohn, que também merece avaliação.

Muitas vezes é uma hemorroida interna em prolapso. Outras lesões também podem sair pelo ânus; a confirmação vem do exame.

Nem sempre. A trombose costuma melhorar sem cirurgia; num estudo, o tempo até a resolução dos sintomas foi de 24 dias com o tratamento clínico. Nos primeiros dias, a retirada local do nódulo pode aliviar mais rápido. Nos estudos disponíveis, que na maioria não eram randomizados, a trombose pode voltar menos vezes depois dela. A decisão é individual e tomada em conjunto.

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Dr. Lucas Gerbasi

Médico Coloproctologista, CRM SP 150786, RQE 72343 / 72344

Atuação em doenças do intestino grosso, reto e ânus e em cirurgia colorretal minimamente invasiva, com ênfase em procedimentos com evidência científica comprovada.