Resposta curta: a cirurgia que retira as hemorroidas costuma doer, sobretudo nos primeiros dias. Isso precisa ser dito antes da operação. Os estudos mostram que a dor varia com a técnica: as técnicas que não retiram as hemorroidas doem menos no início, mas têm maior chance de recidiva, isto é, de a doença voltar depois do tratamento. A dor é tratada com uma combinação de medicações, pomada e cuidados com o intestino. A dor diminui ao longo das semanas. Dor que piora muito ou que não cede com as medicações, sangramento ou dificuldade para urinar são motivos para procurar a equipe. Febre, sobretudo com dor intensa que piora ou dificuldade para urinar, é motivo para procurar o pronto-socorro.
Por que essa cirurgia dói
Hemorroidas são estruturas normais do canal anal, almofadas formadas por vasos, músculo e tecido de sustentação (coxins vasculares), que ajudam a fechar o ânus; a doença hemorroidária é quando elas causam sintomas. A hemorroidectomia, a cirurgia que retira as hemorroidas aumentadas, deixa feridas numa região muito sensível, por onde as fezes passam todos os dias.
A dor depois dessa cirurgia é um medo frequente de quem vai operar. Ela existe e não deve ser minimizada, mas também não deve ser exagerada: o que os estudos mostram é uma dor mais forte nos primeiros dias, que diminui ao longo das semanas. Essa dor pode ser reduzida com a escolha da técnica e com um bom plano de analgesia, ou seja, de controle da dor.
O que os estudos mostram sobre cada técnica
Cada técnica tem prós e contras, que precisam ser pesados na escolha. Por isso, a comparação entre elas é o centro da conversa antes da cirurgia, para que a decisão seja tomada com toda a informação disponível.
As técnicas se dividem em dois grupos. As excisionais retiram as hemorroidas doentes: é a hemorroidectomia, que pode deixar as feridas abertas, fechá-las com pontos ou ser feita com uma pinça de selagem, um aparelho de energia que sela os vasos sanguíneos. As não excisionais não retiram as hemorroidas: a hemorroidopexia grampeada reposiciona as hemorroidas para dentro do canal com um grampeador; a desarterialização transanal (THD) amarra as artérias que nutrem as hemorroidas, com orientação de Doppler (um aparelho que localiza o fluxo de sangue); a hemorroidoplastia a laser (HLP) leva a energia do laser, por uma fibra fina, para dentro do mamilo hemorroidário, ou seja, cada um dos volumes da hemorroida, para reduzi-lo sem retirar o tecido.
Em linhas gerais, as técnicas excisionais tendem a causar mais dor no início e menos recidiva. Nas não excisionais acontece o contrário: menos dor no início e mais recidiva.
A tabela resume o que os estudos mostram em pacientes com hemorroidas de graus III e IV, isto é, que saem pelo ânus e só voltam com a ajuda da mão ou ficam para fora.
Para quem vai operar hemorroidas de graus III e IV
| Técnica | O que faz | Dor nos primeiros dias | Recidiva |
|---|---|---|---|
| Excisionais: retiram as hemorroidas | |||
| Hemorroidectomia aberta | retira e deixa as feridas abertas, sem pontos | maior | menor |
| Hemorroidectomia fechada | retira e fecha as feridas com pontos | menor que a aberta | menor |
| Hemorroidectomia com pinça de selagem | retira com um aparelho de energia que sela os vasos | menor que a convencional no início | menor que a das não excisionais |
| Não excisionais: não retiram | |||
| Hemorroidopexia grampeada | reposiciona com um grampeador | menor no curto prazo | maior |
| Desarterialização transanal (THD) | amarra as artérias, guiada por Doppler | menor | maior |
| Hemorroidoplastia a laser (HLP) | laser por fibra dentro do mamilo, sem retirá-lo | menor | dados ainda limitados |
Comparação com a hemorroidectomia convencional; laser estudado sobretudo nos graus 2 e 3. Fontes da tabela: metanálise em rede de 98 ensaios (Simillis, 2015); revisão de ensaios sobre dor depois da hemorroidectomia (Balciscueta, 2021); revisão Cochrane da pinça de selagem (Nienhuijs, 2009); ensaio eTHoS (Watson, 2016); diretriz da Sociedade Americana de Cirurgiões de Cólon e Reto (Hawkins, 2024).
Alguns detalhes ajudam a entender esses resultados.
- Aberta ou fechada: na hemorroidectomia aberta, as feridas deixadas pela retirada ficam sem pontos; na fechada, são fechadas com pontos. Nos estudos, a aberta doeu mais que a fechada no primeiro dia. As duas têm menos recidiva que as técnicas não excisionais.
- Pinça de selagem: é uma forma de retirar as hemorroidas com um aparelho de energia que sela os vasos durante a retirada. Nos estudos, doeu menos que a retirada convencional nos primeiros dias. Ainda não está claro se essa vantagem em relação à dor continua depois da segunda semana. Com relação à recidiva, foi menor que a da grampeada e a da THD e semelhante à da retirada convencional. Num ensaio pequeno, com 30 pessoas reavaliadas cerca de 3 anos depois da hemorroidectomia com pinça de selagem ou com bisturi elétrico convencional, nenhuma precisou de novo tratamento por causa da volta dos sintomas e não houve perda importante de continência com nenhuma das duas técnicas. Na prática, os poucos dados de longo prazo disponíveis não mostram desvantagem da pinça de selagem em relação à cirurgia convencional.
- Grampeada: num grande ensaio que sorteou os pacientes entre a grampeada e a hemorroidectomia (o eTHoS), a grampeada doeu menos no início, mas teve mais sintomas de volta e pior controle de gases e fezes após um e dois anos. A diretriz americana de 2024 não a recomenda como primeira opção cirúrgica de rotina, pelo perfil de riscos, que inclui sangramento ou estreitamento na linha de grampos e fístula entre o reto e a vagina. Complicações graves, como infecção e perfuração do reto, já foram descritas depois dela em relatos de casos, que não permitem saber a frequência.
- Desarterialização (THD): na metanálise em rede de 98 ensaios, a THD doeu menos que a retirada convencional no primeiro dia, mas teve mais recidiva. Na prática, quem escolhe a THD troca uma recuperação mais leve no início por maior chance de precisar de novo tratamento.
- Laser (HLP): numa revisão que reuniu apenas ensaios randomizados, a dor no dia seguinte à operação foi cerca de 2 pontos menor, numa escala de 0 a 10, com o laser do que com a hemorroidectomia convencional; a confiança nesse número é baixa, porque os estudos foram pequenos e muito diferentes entre si. Num ensaio que acompanhou os pacientes por cinco anos, 29% dos tratados com laser e 24% dos operados com a retirada das hemorroidas relataram volta dos sintomas, diferença que o estudo não tinha tamanho para confirmar. Na prática, o laser tende a doer menos nos primeiros dias, mas ainda não se sabe se o resultado dura tanto quanto o da cirurgia tradicional; os estudos incluíram principalmente pacientes com hemorroidas de graus 2 e 3. Também há relato de complicação grave depois do laser, como necrose (morte do tecido) e perfuração do reto, que exigiu colostomia, ou seja, a saída do intestino pela parede do abdome. Por ser uma técnica mais recente, ainda não se sabe ao certo o que provoca esse tipo de lesão. Um caso isolado não diz com que frequência isso acontece.
Em resumo, a hemorroidectomia convencional, aberta ou fechada, está entre as técnicas que mais doem no início e entre as de menor recidiva. A grampeada e a desarterialização doem menos no início, mas têm mais recidiva. A pinça de selagem doeu menos que a retirada convencional no início, com recidiva semelhante à dela. A escolha considera o grau, o tamanho, se a doença ocupa toda a volta do ânus e os sintomas, numa decisão conversada e compartilhada com o paciente antes da cirurgia.
Como a dor é controlada
O controle da dor combina várias medidas ao mesmo tempo, o que se chama de analgesia multimodal. Uma diretriz europeia de anestesiologia dedicada à dor de cada tipo de cirurgia (PROSPECT, 2023) lista como medidas que melhoraram a dor:
- Paracetamol e anti-inflamatório, como base do tratamento, começados antes da cirurgia e mantidos depois.
- Corticoide por via sistêmica, em dose única durante a cirurgia.
- Bloqueio do nervo pudendo, uma anestesia do nervo da região, feita na cirurgia; o benefício precisa ser pesado contra o risco de lesão do nervo e de dor persistente nesse nervo.
- Pomadas aplicadas no ânus, entre elas a de metronidazol.
- Toxina botulínica, injetada no músculo. Os estudos incluídos não avaliaram a incontinência anal, a dificuldade de segurar gases ou fezes. Na prática, o uso tem limites: o custo é alto, o que a própria diretriz aponta como obstáculo ao uso de rotina. Em geral, também não há cobertura dos convênios. A aplicação também precisa ser planejada com antecedência em relação à cirurgia, para que o efeito máximo coincida com a primeira semana depois da operação, o que complica a logística.
O plano recomendado pela mesma diretriz também inclui laxantes; o opioide (como tramadol, codeína ou morfina) fica só como resgate, quando o restante não basta.
A dipirona. A dipirona, conhecida pelo nome comercial Novalgina, é um analgésico muito usado no Brasil e pode fazer parte do plano de dor. Ela raramente aparece nos estudos científicos sobre a dor depois dessa cirurgia, porque não é liberada em vários países. Isso não quer dizer que ela não funcione: quer dizer apenas que ela não entra como evidência científica nessas comparações.
O metronidazol. O metronidazol pode ser usado depois da cirurgia em pomada, aplicada no ânus, ou via oral. O metronidazol via oral não tem o mesmo apoio: a diretriz europeia deixou de indicá-lo para a dor, porque os estudos divergem e recomenda a pomada. Uma revisão de 2026 encontrou cerca de 1 ponto a menos de dor, numa escala de 0 a 10, no primeiro dia; um ensaio com placebo de 2021 não encontrou diferença. O comprimido tem efeitos colaterais próprios, como desconforto digestivo e gosto metálico. O benefício para a dor também é incerto. Por isso, para a dor, a forma recomendada é a pomada; o comprimido pode ser indicado por outros motivos.
Intestino funcionando. A primeira evacuação depois da cirurgia pode gerar apreensão. A diretriz europeia de dor inclui os laxantes no plano do pós-operatório.
Banho de assento. É muito usado. Os dados científicos disponíveis são limitados e se referem à hemorroida com sintomas, não ao pós-operatório.
O plano de cada paciente combina essas medidas e é explicado antes da cirurgia, junto com o tempo de afastamento, que varia de pessoa para pessoa, com a técnica e com o tipo de trabalho.
Outros riscos que acompanham a dor
A dor é o que mais preocupa, mas não é o único risco. Somando todas as técnicas, cerca de 2% dos operados precisaram de nova cirurgia de urgência nos estudos, quase sempre por sangramento. A estenose anal, um estreitamento do ânus pela cicatriz, e a incontinência podem ocorrer depois de qualquer técnica; a comparação entre as técnicas não mostrou diferença nesses dois pontos. A retenção urinária, quando a pessoa não consegue urinar, é outra complicação registrada depois da cirurgia, em estudos citados pela diretriz americana.
A sepse pélvica, uma infecção grave da pelve, é rara. Ela pode surgir depois da cirurgia de hemorroida e também de procedimentos de consultório, como a ligadura elástica. Pode se manifestar com dor intensa, dificuldade para urinar e inchaço que piora.
Esses números não servem para assustar. Servem para que a decisão de operar e a escolha da técnica sejam feitas conhecendo o que se ganha e o que se arrisca.
Quando procurar a equipe
Depois da cirurgia, a orientação é procurar a equipe em caso de:
- Dor que piora muito ou que não cede com as medicações combinadas.
- Dificuldade para urinar ou incapacidade de urinar.
- Sangramento em quantidade, com coágulos ou que não para.
Febre, sobretudo com dor intensa que piora ou dificuldade para urinar: procurar o pronto-socorro.
Esses sinais podem indicar sangramento, retenção urinária ou infecção, que precisam de avaliação sem demora.
Perguntas frequentes
A dor é mais forte nos primeiros dias e diminui ao longo das semanas. Nos estudos, a diferença de dor entre as técnicas foi medida sobretudo no primeiro dia. Num grande estudo, a grampeada doeu menos que a hemorroidectomia na primeira e na terceira semana; na sexta semana, a dor já não diferia.
A dor acontece com todas as técnicas, em graus diferentes. As técnicas que não retiram as hemorroidas, como a grampeada e a desarterialização, doem menos no início, mas têm mais recidiva. A escolha depende do grau e do tamanho das hemorroidas e é conversada antes da cirurgia.
Pode doer. A apreensão é comum. A diretriz europeia de dor inclui laxantes no plano do pós-operatório. Num ensaio pequeno, a pomada de metronidazol reduziu também a dor ao evacuar no segundo dia, sem diferença nos dias seguintes.
Para a dor, a forma recomendada pela diretriz europeia é a pomada. O comprimido não é mais indicado por essa diretriz para a dor: os estudos divergem, o benefício é incerto e ele tem efeitos colaterais próprios, como desconforto digestivo e gosto metálico.
Depende da técnica, do tipo de trabalho e da recuperação de cada paciente. Não há um prazo único. O prazo é combinado em consulta, antes da cirurgia.
Sangramento em quantidade, com coágulos ou que não para é motivo para procurar a equipe ou o pronto-socorro. Nova cirurgia por sangramento é rara, mas acontece: somando todas as técnicas, cerca de 2% dos operados precisaram de nova cirurgia de urgência nos estudos, a maioria por sangramento.
Para entender
Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individual.
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