Resposta curta: não como prova isolada. O teste do sopro mede gases produzidos pela fermentação de um açúcar ingerido; ele não enxerga bactérias nem mostra em que parte do intestino a fermentação aconteceu. Quando o trânsito é rápido, o açúcar chega cedo ao intestino grosso e o teste pode dar positivo sem que exista SIBO, sigla em inglês para supercrescimento bacteriano do intestino delgado. Por isso, o resultado só tem valor quando lido junto com a história clínica e com a chance de a pessoa ter SIBO antes do exame.
Como o teste funciona?
A pessoa bebe uma solução com um açúcar, em geral glicose ou lactulose. A glicose é absorvida no início do intestino delgado; a lactulose não é absorvida no intestino delgado e chega inteira ao intestino grosso. As bactérias que encontram esse açúcar o fermentam e produzem gases, como o hidrogênio e o metano, que passam para o sangue e saem na respiração. O aparelho mede esses gases em amostras de ar; a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) orienta fazer o exame em 90 minutos, com coletas a cada 15 minutos.
A lógica do exame é esta: se o gás sobe cedo, antes de o açúcar chegar ao intestino grosso, a fermentação estaria acontecendo no intestino delgado e, portanto, haveria um excesso de bactérias lá. O ponto fraco é que o teste não mostra onde o açúcar está quando o gás sobe. Quando o trânsito intestinal é mais rápido, a subida precoce pode vir da fermentação do açúcar no intestino grosso, pois o açúcar pode ter chegado lá antes do que seria esperado.
Com o que o teste é comparado?
Para saber se um exame acerta, ele é comparado com uma referência. No SIBO, a referência é a cultura do líquido colhido de dentro do intestino delgado, o aspirado, feito por endoscopia. Essa referência também tem limites. Além disso, os critérios para considerar o teste do sopro positivo não são aceitos de forma uniforme. Por isso, o resultado do teste é lido junto com a história clínica.
O que os estudos mostram?
O teste detecta pouco mais da metade dos casos. Uma metanálise, estudo que reúne e analisa em conjunto os resultados de vários estudos, publicada em 2020 reuniu 14 estudos que compararam o teste do sopro com a cultura do líquido do intestino delgado. O teste com glicose detectou 54,5% dos casos que a cultura encontrou e deu negativo em 83,2% de quem não tinha SIBO. O teste com lactulose, avaliado em 4 estudos com 214 pacientes, detectou 42,0% e deu negativo em 70,6%. Os estudos eram pequenos e diferentes entre si; a própria cultura não é uma referência perfeita. Mas, para o paciente: um teste negativo não exclui o SIBO; um positivo também não o confirma.
Em quem já tinha feito cirurgia do tubo digestivo, o teste com glicose detectou mais casos: 81,7%, contra 40,6% em quem não tinha condição predisponente (vide a descrição completa no texto SIBO ou intestino irritável: como diferenciar?), numa análise de apenas 3 estudos.
A lactulose erra mais. Outra metanálise mostra o tamanho da diferença entre os açúcares: entre as pessoas sem síndrome do intestino irritável (SII) usadas como comparação, o teste com lactulose deu positivo em 33,5%, contra 4,4% com o teste com glicose. Ou seja, com a lactulose, o positivo é bem mais comum mesmo em quem não tem SII.
O positivo pode refletir só a velocidade do trânsito. Num estudo com 40 pessoas com SII, o teste com lactulose foi feito junto com uma cintilografia, exame de imagem que mostra por onde passa uma refeição marcada com um isótopo radioativo. Em 22 dos 25 testes positivos (88%), a refeição marcada já tinha chegado ao ceco, o início do intestino grosso, em 5% ou mais, quando o gás subiu; os autores sugerem que o exame mediu o trânsito intestinal e não as bactérias no intestino delgado. O estudo não teve cultura nem grupo de comparação. Em 3 dos 25, o gás subiu antes de o açúcar chegar ao intestino grosso. Para quem tem SII: um positivo com lactulose pode estar medindo a velocidade do intestino.
Mesmo a glicose pode errar, inclusive em quem foi operado. Um estudo retrospectivo, de um único centro nos Estados Unidos, analisou 139 testes com glicose feitos junto com uma cintilografia. Nele, a referência foi a cintilografia e não a cultura: o exame de imagem mostra quando a glicose marcada chega ao intestino grosso; se o gás subia antes disso, o teste positivo contava como SIBO. Se subia depois, contava como fermentação no intestino grosso. Entre os testes positivos, 22 de 46 foram classificados como fermentação no intestino grosso. Em quem tinha cirurgia anterior do estômago ou da parte inicial do intestino, isso aconteceu em 20 de 31 positivos (65%); sem cirurgia, em 2 de 15 (13%); nesse grupo, 13 dos 15 positivos foram classificados como SIBO.
Por que isso aconteceu nos operados? Nesse estudo, depois de cirurgias do estômago ou do início do intestino, a glicose chegou ao intestino grosso mais cedo: em média em 54 minutos, contra 83 minutos em quem não tinha sido operado. Os autores sugerem que, com o trânsito mais rápido, parte da glicose escapa da absorção e é fermentada pelas bactérias do intestino grosso, que normalmente vivem ali. O gás sobe dentro do prazo do teste, mas não vem do intestino delgado.
Para quem já foi operado, apesar de o SIBO ser mais provável, o açúcar também pode chegar mais cedo ao intestino grosso. Por isso, nesses pacientes, o teste detecta mais casos e também pode dar mais falsos positivos.
Melhorar com o antibiótico confirma o SIBO?
Não necessariamente. Num ensaio pequeno e curto, com 124 adultos com barriga inchada e gases, todos com teste com lactulose normal, a rifaximina, um antibiótico pouco absorvido pelo intestino, aliviou os sintomas de 41,3% dos pacientes em 10 dias, contra 22,9% com placebo. Para o paciente: a melhora aconteceu sem SIBO detectado pelo teste; por isso, melhorar com o antibiótico não prova que havia SIBO.
Há dados no sentido contrário. Num estudo com 93 pessoas com síndrome do intestino irritável (SII) com diarreia tratadas com rifaximina, responderam ao tratamento 59,7% das que tinham teste com lactulose positivo e 25,8% das que tinham teste negativo. O estudo foi aberto, sem grupo placebo e financiado pelo fabricante do medicamento. Para o paciente: o teste positivo se associou a mais resposta, mas um teste negativo não impediu a melhora. Uma atualização da Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) considera que o teste poderia identificar quem tende a responder melhor ao tratamento com a rifaximina.
No mesmo estudo, 17 dos 58 pacientes com teste positivo normalizaram o exame depois da rifaximina; desses 17, foram 13 pacientes que tiveram melhora dos sintomas (76,5%). Ainda assim, o resultado do teste depois do tratamento, como parâmetro isolado, não foi capaz de prever a melhora dos sintomas. Ou seja, o teste até ajuda a prever quais pacientes se beneficiariam do uso da rifaximina, apesar das limitações, mas repeti-lo após o tratamento não ajuda a prever se o tratamento foi efetivo ou não.
E o positivo depois do tratamento?
O teste volta a dar positivo com frequência. Num estudo italiano com 80 pacientes com distúrbios funcionais do intestino e sem cirurgia gastrointestinal maior, todos com teste com glicose normal depois da rifaximina, o exame voltou a dar positivo em 10 (12,5%), 22 (27,5%) e 35 (43,7%) pacientes após 3, 6 e 9 meses do tratamento, respectivamente. Quem voltou a ter teste positivo tinha, em média, mais dor e mais distensão. Como o estudo não teve grupo de comparação, não dá para saber se o SIBO voltou, se o tratamento falhou ou se o próprio teste oscilou.
A diretriz de SIBO do Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG) afirma que repetir o tratamento com rifaximina se baseia só em relatos e na opinião de especialistas. A FBG propõe repetir o teste e, se ele for positivo com sintomas, considerar um novo curso. O mesmo documento reconhece que faltam diretrizes definitivas para o SIBO que volta.
E as sociedades médicas concordam?
Não. Sobre testar SIBO em quem tem SII, sem condição predisponente:
- Não indicam o teste de rotina: os critérios de Roma V (2026), as diretrizes de SII britânica (2021) e canadense (2019), a diretriz europeia para SII com diarreia (2022) e a atualização da AGA sobre barriga inchada (2023).
- Admitem o teste: a diretriz de SIBO do ACG (2020) admite o teste em pessoas com SII.
O comitê do Roma V não recomenda o teste respiratório de rotina para SIBO, nem o de microbiota, na avaliação inicial da SII, por limitações do exame e por evidência insuficiente de valor diagnóstico ou terapêutico. Numa tabela suplementar do próprio Roma V, que compara 14 documentos, 5 dizem “não” ao teste (entre eles o próprio Roma V, a diretriz britânica de 2021 e a canadense de 2019), 3 admitem o uso seletivo e os outros 6 não abordam o tema. Para o paciente: esses documentos não recomendam o teste de rotina na avaliação inicial da SII, mas isso é uma orientação e jamais uma proibição. A diretriz de SIBO do ACG, que sugere o teste, não faz parte dessa tabela.
Dois documentos tratam de perguntas vizinhas. A FBG considera o teste do sopro o método inicial para diagnosticar o SIBO, apesar de suas falhas, e afirma que o fator mais importante para o bom desempenho do exame é a probabilidade de a pessoa ter a doença antes do teste. Isso quer dizer que o teste será mais efetivo se for indicado ao paciente certo. Já a diretriz europeia de testes respiratórios admite o teste em quem tem barriga inchada, desconforto e gases sem outro diagnóstico, sobretudo quando há condição que aumenta o risco, novamente corroborando a importância da indicação do exame de maneira criteriosa.
A pergunta que ajuda a decidir
Antes de pedir o teste, uma pergunta organiza a decisão: se o resultado vier negativo, a conduta muda? Quando o tratamento seria o mesmo com qualquer resultado, o teste acrescenta pouco. Quando há condição predisponente, como uma cirurgia que mudou o trajeto do intestino, a chance de SIBO antes do exame é maior, mas, depois de cirurgias do estômago ou do início do intestino, o positivo também pode vir do trânsito rápido.
Quem recebeu o diagnóstico de SIBO e não tem condição predisponente encontra no texto SIBO ou intestino irritável: como diferenciar? o que pesa para cada diagnóstico. A consulta com um especialista pode ajudar a avaliar a necessidade do exame e a interpretar o seu resultado, pois ainda há muita discordância entre as sociedades médicas sobre o papel do teste do sopro no diagnóstico e no tratamento do SIBO.
Recomendações sobre o teste do sopro para SIBO, em adultos com suspeita da doença
| Sociedade e ano | Quando testar | Critério de positivo | Força |
|---|---|---|---|
| Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG), 2020 | Sugere na SII, em sintomas com distúrbio motor ou cirurgia prévia do tubo digestivo | Hidrogênio 20 ppm acima do basal em até 90 min | Condicional; evidência muito baixa |
| Consenso norte-americano de testes respiratórios, 2017 | Sugere o teste no diagnóstico do SIBO | O mesmo corte de 20 ppm, que o ACG atribui a este consenso | Fraca |
| Diretriz europeia de testes respiratórios, 2022 | Pode considerar com distensão, desconforto, gases ou má absorção sem outro diagnóstico | Não fixa corte; diz que os critérios não estão confirmados | Qualidade A, força B |
| Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), 2025 | Método inicial de escolha; suspeita maior com condição predisponente | Hidrogênio 20 ppm ou metano 10 ppm | Sem graduação; aprovada por maioria |
| Critérios de Roma V (Rome Foundation), 2026 | Não recomenda o teste de rotina na avaliação inicial da SII | Não se aplica | Consenso sem graduação |
ppm: partes por milhão, a unidade em que o aparelho mede o gás. Qualidade e força da diretriz europeia seguem uma escala de A a D; a qualidade A apoia-se em revisão narrativa e estudos pequenos. A diretriz europeia é da Associação Europeia de Gastroenterologia, Endoscopia e Nutrição, da Sociedade Europeia de Neurogastroenterologia e Motilidade e da Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátricas.
Onde divergem: sobre testar quem tem SII, o ACG sugere o teste e o Roma V não o recomenda de rotina na avaliação inicial, por pesar as limitações do exame e a falta de evidência de valor diagnóstico ou terapêutico; as demais tratam do SIBO em geral ou de quem tem sintomas sem outro diagnóstico e não respondem a essa pergunta. Sobre o critério de positivo, ACG, consenso norte-americano e FBG usam o mesmo corte, enquanto a diretriz europeia declara que os critérios não estão confirmados.
Metanálise de 14 estudos contra a cultura. A pergunta era se o teste acerta quando comparado com a cultura do líquido do intestino delgado. A metanálise, de 2020, reuniu 14 estudos: o teste com glicose teve sensibilidade de 54,5% (detectou esse percentual dos casos de SIBO encontrados pela cultura) e especificidade de 83,2% (deu negativo nesse percentual de quem não tinha SIBO); com lactulose, em 4 estudos com 214 pacientes, 42,0% e 70,6%. O principal limite: estudos pequenos, publicados entre 1986 e 2018, com populações misturadas e resultados muito diferentes entre si; a cultura é uma referência imperfeita.
Estudo com cintilografia e teste com glicose. A pergunta era quantos testes positivos vinham do intestino grosso. Foi um estudo retrospectivo, de um centro dos Estados Unidos (2003 a 2013), com 139 testes com glicose feitos junto com uma cintilografia. Usar a cintilografia como referência quer dizer que o padrão de comparação não era a cultura, mas o momento em que a glicose marcada chegava ao intestino grosso: o teste positivo foi classificado como SIBO quando o gás subiu antes disso e como fermentação no intestino grosso quando subiu depois. Entre os positivos, 22 de 46 foram atribuídos ao intestino grosso (20 de 31 em quem foi operado do estômago ou do início do intestino; 2 de 15 nos demais). O principal limite: retrospectivo, de um só centro, com corte de positivo de 15 ppm (diferente dos 20 ppm das diretrizes) e referência diferente da cultura, de modo que os dois estudos não medem a mesma coisa.
Perguntas frequentes
Não isoladamente. O teste pode dar positivo quando o trânsito é rápido, sem supercrescimento no intestino delgado. O resultado é lido junto com a história clínica.
Também não. Nos estudos que compararam o teste com a cultura, o teste com glicose detectou pouco mais da metade dos casos.
Nos estudos que compararam o teste com a cultura, a glicose errou menos que a lactulose. A diretriz europeia prefere a glicose em quem não foi operado, quando não há medida do trânsito; a FBG aceita os dois açúcares.
Não de rotina. A AGA considera que não é preciso repetir o teste quando os sintomas respondem. A FBG propõe repetir quando os sintomas persistem.
Vale rever o diagnóstico: se há condição predisponente e se os sintomas correspondem à SII, que tem tratamentos próprios. A diretriz de SIBO do ACG considera o tratamento da causa a principal forma de evitar cursos repetidos de antibiótico.
A diretriz de SIBO do ACG propõe medir o metano em quem tem constipação, o intestino preso. A diretriz europeia registra que pessoas com predomínio de metano podem ter mais barriga inchada e distensão, com constipação. O tema tem texto próprio: “Metano no teste do sopro e IMO: o que significa?”
Para entender
Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individual.
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