Dr. Lucas Gerbasi, coloproctologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo

Para entender

Colonoscopia: como é, preparo, sedação e quando repetir

Resposta curta: a colonoscopia é o exame que examina todo o intestino grosso por dentro com uma câmera e permite retirar pólipos. Pólipo é uma saliência na parede interna do intestino; alguns tipos podem virar câncer com o tempo. A colonoscopia serve para o rastreamento, que são os exames em quem não tem sintomas para achar cedo o câncer ou lesões que podem virar câncer. Também serve para investigar sintomas e para acompanhar quem já teve pólipo ou câncer. O exame depende de um bom preparo do intestino e costuma ser feito com sedação, uma medicação que deixa o paciente sonolento ou adormecido durante o exame. As complicações graves são pouco frequentes: nos estudos de colonoscopia de rastreamento, a perfuração, um furo na parede do intestino, ocorreu em cerca de 0,03% dos exames e o sangramento grave em cerca de 0,15%. Numa pessoa de risco médio com exame normal e de qualidade, a colonoscopia é repetida em até 10 anos; quando há pólipos, o intervalo depende do que foi retirado.

Para que serve a colonoscopia?

Entre os exames de rastreamento, a colonoscopia tem uma particularidade: o mesmo exame que encontra a lesão pode retirá-la. Assim, ela ajuda a descobrir o câncer cedo e também a preveni-lo, pela retirada dos pólipos.

A colonoscopia também é o exame indicado para investigar sintomas e para confirmar o diagnóstico de câncer com a biópsia, a retirada de um pequeno pedaço de tecido para análise no laboratório.

Esquema da colonoscopia: o aparelho percorre todo o intestino grosso, do ânus ao ceco, com a ponta ampliada e o nome de cada parte.

Quem tem sintomas, como sangue nas fezes ou mudança no hábito intestinal que não passa, não está em rastreamento: precisa de avaliação médica, em qualquer idade. Quem já teve adenoma (o tipo de pólipo de onde se forma a maioria dos cânceres colorretais), câncer colorretal ou doença inflamatória do intestino (doença de Crohn ou retocolite ulcerativa) tem o intervalo dos exames definido conforme o caso.

A idade de início do rastreamento e as outras opções de exame estão em Rastreamento do câncer colorretal: quem deve fazer, a partir de que idade e com qual exame. O que muda quando há casos na família está em Câncer de intestino em jovens e história familiar.

Como é o preparo

Para o exame funcionar, o intestino precisa estar limpo. O preparo é feito com dieta nos dias anteriores e laxante, conforme a orientação por escrito do serviço onde o exame será feito.

A diretriz da Sociedade Americana do Câncer (ACS), de 2026, lista o que define a qualidade de uma colonoscopia:

  • Preparo adequado do intestino, sem resíduos que escondam a parede.
  • Chegada ao ceco, o início do intestino grosso, o que garante que o intestino grosso foi examinado por inteiro.
  • Tempo de retirada do aparelho, que é o tempo dedicado a examinar a parede enquanto o aparelho volta.
  • Taxa de detecção de adenomas, a proporção dos exames de um médico em que ele encontra ao menos um adenoma.

Ou seja, a qualidade depende tanto do preparo feito em casa quanto de quem faz o exame.

Antes do exame

Quem usa anticoagulante (medicação que diminui a coagulação do sangue), antiagregante plaquetário (medicação que diminui a ação das plaquetas, células do sangue que ajudam a formar o coágulo) ou outras medicações de uso contínuo deve informar o médico antes do exame. As doenças de cada pessoa também são informadas, porque entram na avaliação do risco da sedação.

Por causa da sedação, é preciso ir com um acompanhante, ter quem leve e busque e reservar o dia, sem trabalhar.

A sedação

A sedação tem riscos, sobretudo para o coração e a respiração. A diretriz de sedação em endoscopia da Sociedade Americana de Endoscopia Gastrointestinal (ASGE), de 2018, recomenda:

  • Avaliar o risco antes do exame, conforme as doenças de cada pessoa.
  • Monitorar durante o exame a pressão, a oxigenação do sangue e os batimentos do coração.
  • Considerar o anestesista em quem tem várias doenças ou maior risco na respiração.
  • Informar o paciente dos benefícios, dos riscos e das alternativas da sedação antes de ele consentir.

Para quem não tem fatores de risco, a mesma diretriz considera segura e eficaz a sedação leve a moderada usada na colonoscopia.

Como o exame é feito

Com o paciente sedado, o médico introduz pelo ânus um aparelho fino e flexível, o colonoscópio, com uma câmera na ponta, e examina o intestino grosso inteiro. Quando encontra um pólipo, em geral pode retirá-lo no mesmo exame. Quando encontra uma lesão suspeita, faz a biópsia. O material vai para o laboratório e o resultado da análise define os próximos passos.

Como o pólipo é retirado na colonoscopia: a alça laça a base do pólipo, corta e o recolhe para análise no laboratório, em três quadros.

A retirada de pólipos e o acompanhamento depois dela estão em Pólipos intestinais: o que são, retirada e acompanhamento.

Às vezes a colonoscopia não consegue examinar o intestino grosso inteiro. Nesses casos, a diretriz europeia de colonografia (ESGE e ESGAR, 2020) indica a colonoscopia virtual, ou colonografia por tomografia, para completar a avaliação. Ela é uma tomografia do abdome que monta imagens do intestino grosso, a partir de um software.

Quais são os riscos?

Como todo procedimento, a colonoscopia tem riscos. A revisão de estudos que embasou a recomendação da Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), de 2021, reuniu os dados da colonoscopia de rastreamento, ou seja, feita em pessoas sem sintomas:

  • Perfuração: 3,1 a cada 10.000 exames (cerca de 0,03%), em 26 estudos com cerca de 5,3 milhões de exames.
  • Sangramento grave: 14,6 a cada 10.000 exames (cerca de 0,15%), em 20 estudos com cerca de 5,2 milhões de exames.

Na colonoscopia feita depois de um teste de fezes positivo, os números foram maiores: 5,4 perfurações e 17,5 sangramentos graves a cada 10.000 exames. Os estudos também mostraram que essas complicações aumentam com a idade. Segundo a diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG), de 2021, o risco também é maior quando há retirada de pólipos.

As diretrizes descrevem ainda outras complicações, sem dar a frequência de cada uma:

  • Complicações da sedação, sobretudo do coração e da respiração.
  • Alterações nos sais do sangue e lesão nos rins, causadas pelo preparo.
  • Lesão do baço.
  • Câncer pós-colonoscopia, que é o câncer diagnosticado depois de uma colonoscopia que não o encontrou. A qualidade do preparo e do exame influencia esse risco.

O óbito é raro, mas infelizmente pode acontecer. A indicação do exame pesa esses riscos contra o benefício. O risco de cada pessoa é conversado antes.

De quanto em quanto tempo repetir

O intervalo depende do risco de cada pessoa e do que o exame encontrou. A diretriz americana de seguimento depois da colonoscopia (força-tarefa de várias sociedades, USMSTF, 2020) parte de um princípio: o risco de uma nova lesão avançada depende do achado do exame anterior. Quando o exame não encontra lesão, o risco é menor.

Para quem tem risco médio, ou seja, sem câncer colorretal nem pólipo avançado em parente de primeiro grau (pai, mãe, irmãos ou filhos), sem retocolite ulcerativa ou doença de Crohn e sem síndrome hereditária, um exame normal se repete em até 10 anos. Pólipo avançado inclui, por exemplo, o adenoma de 10 mm ou mais.

Esse intervalo pressupõe uma colonoscopia de qualidade: exame completo até o ceco, preparo adequado do intestino e um médico com taxa de detecção de adenomas adequada, critérios já descritos na seção do preparo. Se o exame não teve essa qualidade, não se pode contar com o intervalo de 10 anos. A USMSTF condiciona os intervalos a um exame de qualidade e pede cautela para aplicá-los quando há dúvida sobre ela. Nesse caso, o momento do próximo exame é conversado com o médico.

Os intervalos depois da retirada de pólipos estão na página de pólipos intestinais. A idade de início e as outras opções de rastreamento estão no texto de rastreamento do câncer colorretal.

Como a decisão é tomada

A colonoscopia não é a única opção de rastreamento. Testes nas fezes e a colonoscopia virtual também são usados; quando o resultado deles é positivo, a colonoscopia deve ser feita. A diretriz da ACS recomenda que cada pessoa receba informação sobre o potencial de prevenção, a eficácia, a precisão, os custos e os danos de cada exame para escolher de forma informada. A comparação entre os exames está no texto de rastreamento.

A escolha leva em conta o risco de cada pessoa, a idade, a saúde, os exames anteriores e as preferências do paciente. A decisão é tomada em conjunto.

Perguntas frequentes

A sedação diminui o desconforto do exame; o tipo de sedação é conversado antes com a equipe.

A dieta dos dias anteriores faz parte do preparo e é orientada por escrito pelo serviço que fará o exame. Seguir essa orientação importa, porque a qualidade do exame depende da limpeza do intestino.

Para quem não tem fatores de risco, a sedação leve a moderada usada na colonoscopia é considerada segura e eficaz pela diretriz de sedação em endoscopia. Ela tem riscos, sobretudo para o coração e a respiração, que são avaliados antes do exame e monitorados durante ele.

Não. Como o exame é feito com sedação, é preciso ir com um acompanhante, ter quem leve e busque e reservar o dia, sem trabalhar.

Em geral, o pólipo é retirado no mesmo exame e vai para o laboratório. O tipo, o tamanho e o número de pólipos definem quando repetir a colonoscopia; os intervalos estão na página de pólipos intestinais.

Pode. Um câncer pode ser diagnosticado depois de uma colonoscopia que não o encontrou. Um bom preparo e um exame completo e cuidadoso diminuem esse risco. Sintomas que aparecem depois de uma colonoscopia normal merecem avaliação médica.

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Artigo escrito e revisado por:

Dr. Lucas Gerbasi, Médico Coloproctologista, CRM SP 150786, RQE 72343 / 72344

Atuação em doenças do intestino grosso, reto e ânus e em cirurgia colorretal minimamente invasiva, com ênfase em procedimentos com evidência científica comprovada.