Se você chegou até aqui, provavelmente está lidando com um desconforto que já dura tempo demais e buscando, com discrição, uma saída. A doença hemorroidária é uma condição extremamente comum, mas ainda carregada de silêncio e vergonha.
E quando surge a opção de uma “cirurgia a laser”, prometendo menos dor, recuperação rápida e modernidade, é natural que isso pareça a resposta ideal. Mas existe uma informação que raramente aparece nas pesquisas: o uso do laser para cirurgia de hemorroida não é aprovado pelo FDA (a agência regulatória dos Estados Unidos).
Entender o que isso significa pode mudar completamente a sua decisão. Este artigo foi escrito para ajudá-lo a tomar uma decisão informada, sem jargões, sem alarmismo, e com toda a honestidade que você merece.
Como saber se é hemorroida? Conheça os sintomas e o que causa a inflamação
As hemorroidas são estruturas vasculares que existem naturalmente no canal anal — todo ser humano as tem. O problema começa quando elas ficam inflamadas, dilatadas ou prolapsadas.
Se você está tentando entender como identificar a hemorroida, fique atento aos principais sinais:
- Sangramento anal: notar sangue vivo no papel higiênico, no vaso ou nas fezes.
- Caroço no ânus: sentir uma saliência ou a sensação de “algo saindo” ao evacuar.
- Dor ou desconforto: dor persistente na região anal, principalmente ao sentar ou evacuar.
- Coceira anal frequente e irritação na pele da região.
Como aliviar a hemorroida inflamada?
A boa notícia é que a grande maioria dos casos pode ser controlada de forma clínica, sem necessidade de operação. Muitas vezes, o tratamento para hemorroida inicial envolve apenas o ajuste da dieta, aumento do consumo de fibras e água, mudança de hábitos intestinais e, em alguns casos, medicamentos ou pomadas tópicas recomendadas pelo especialista.
A cirurgia — seja qual for a técnica — é indicada apenas quando o tratamento clínico não é suficiente ou quando o grau da hemorróida é avançado. É uma decisão que deve ser tomada com calma, com base em exame clínico e em uma conversa franca com um coloproctologista.
O que o FDA tem a ver com o laser para hemorroida?

O FDA (Food and Drug Administration) é o órgão dos Estados Unidos responsável por aprovar medicamentos, equipamentos e procedimentos médicos com base em evidências científicas sólidas. Isso importa por um motivo simples: a maior parte dos estudos clínicos de referência no mundo é conduzida ou regulada por padrões americanos..
Quando um procedimento não passa por essa aprovação, é sinal de que as evidências sobre sua eficácia e segurança ainda são insuficientes. No caso do laser para hemorróidas, não existe aprovação do FDA para esse uso específico.
Isso não é um detalhe burocrático, significa que:
- Não há estudos robustos e independentes que comprovem que o laser causa menos dor do que as técnicas convencionais.
- A energia laser age de forma errática nos tecidos biológicos, com respostas que podem variar de paciente para paciente.
- Para energia poder ser usada com segurança, ele precisa ser testada e comprovada a segurança no local de aplicação específico e isso não foi com o laser de diodo no canal anal.
- Os riscos e complicações específicos dessa técnica podem estar sendo subestimados ou sub-relatados.
- Exceção ao uso de laser de CO2, que embora seja seguro, foi extensamente estudado na década de 90, porém não demonstrou vantagem com relação ao uso do bisturi convencional.
“Mas me disseram que o laser dói menos…” O que a ciência diz sobre o pós-operatório?
Esse é o argumento mais comum para tentar definir qual a melhor cirurgia para hemorroida, e é compreensível que ele pareça convincente. No entanto, a realidade prática é diferente.
Quando ressecamos as hemorroidas, resulta em uma ferida na região anal. E feridas nesta região causam dor durante a cicatrização, seja ela feita com bisturi, eletrocautério ou laser. Não existe, até hoje, nenhum estudo com metodologia sólida que demonstre que o laser reduz significativamente a dor no pós-operatório em comparação com técnicas consagradas e aprovadas.
O que realmente dita como será a recuperação da cirurgia de hemorroida é:
- A experiência e habilidade do cirurgião;
- O grau da hemorroida (se é hemorroida interna ou externa);
- Os cuidados pós-operatórios seguidos pelo paciente;
- As características biológicas individuais de cada organismo.
A ressalva importante é que podemos em casos selecionados, não ressecar a hemorroida com diversas outras técnicas existentes, todas com comprovação científica e os estudos de segurança que a medicina exige. E sim, todas essas técnicas demonstram menos dor no pós-operatório, mas sempre com maior chance das hemorroidas voltarem no futuro. Por isso que usamos em casos selecionados.
Um alerta importante: cuidado com promessas de “cirurgia sem dor”. Qualquer cirurgia que envolva a região anal tem um pós-operatório que exige atenção e cuidado. Isso é fisiologia — não depende do equipamento utilizado. Quando um profissional afirma categoricamente que determinada técnica é “sem dor”, vale questionar: essa informação está embasada em evidências científicas publicadas ou é apenas uma estratégia de marketing?
Quais são as técnicas cirúrgicas aprovadas e seguras?
A coloproctologia dispõe de diversas abordagens para o tratamento cirúrgico das hemorroidas, com décadas de estudos e resultados documentados. Entre as mais utilizadas, validadas e seguras estão:
- Hemorroidectomia convencional (técnica de Milligan-Morgan ou Ferguson): remoção cirúrgica direta das hemorroidas, com longa história de eficácia documentada.
- Ligadura elástica (rubber band ligation): muito indicada para casos de hemorróidas internas de grau I a III, apresentando boa eficácia e recuperação rápida.
- Hemorroidopexia com grampeador (técnica de Longo): excelente opção para casos de prolapso, pois deixa uma menor área ferida na pele.
- Desarterialização hemorroidária (THD/HAL): procedimento minimamente invasivo guiado por Doppler, que interrompe o fluxo arterial para as hemorroidas.
A escolha da técnica mais adequada depende estritamente do grau da doença, do perfil clínico do paciente e da experiência do médico. Não existe uma técnica universalmente superior — existe a técnica correta para cada caso.
Como avaliar se a indicação médica que você recebeu é segura?
Antes de aceitar qualquer indicação cirúrgica, você tem todo o direito de fazer perguntas. Um bom especialista vai respondê-las com total transparência. Algumas perguntas que podem guiar sua próxima consulta:
- “Por que o laser é a técnica indicada para o meu caso?”
- “Quais são as evidências científicas que embasam essa escolha?”
- “Quais são os riscos específicos desse procedimento?”
- “Existem técnicas alternativas aprovadas para o meu grau de hemorroida?”
Lembre-se: buscar uma segunda opinião médica nunca é exagero. É um direito do paciente, garantido pelo Código de Ética Médica e estimulado pela boa prática clínica.
Quando devo consultar um coloproctologista?
Se você apresenta algum dos sinais abaixo por mais de duas semanas, agendar uma consulta com um coloproctologista (médico especializado em doenças do intestino grosso, reto e ânus) é o passo mais correto:
- Sangramento anal (mesmo que pequeno ou esporádico);
- Dor, ardência ou desconforto persistente na região anal;
- Sensação de prolapso (“algo saindo ou um caroço”) ao evacuar;
- Coceira anal frequente sem causa aparente;
- Alteração persistente do hábito intestinal (constipação severa ou diarreia);
- Histórico familiar de câncer colorretal.
Importante: sangramento anal nunca deve ser ignorado ou automaticamente atribuído à hemorroida sem avaliação médica especializada e o exame físico da região. Outros diagnósticos, incluindo condições mais sérias como o câncer de intestino, podem se manifestar da mesma forma e precisam ser categoricamente descartados.
Pesquisar sobre saúde na internet é um ato de responsabilidade. Mas nenhum conteúdo online, por mais completo que seja, pode substituir uma avaliação presencial com um especialista. A automedicação ou a adesão a protocolos sem respaldo científico podem agravar o quadro e postergar o cuidado adequado.
A avaliação médica é discreta, segura e focada em trazer o alívio que você está buscando.
Artigo escrito e revisado por:
Dr. Lucas Gerbasi Coloproctologista | CRM 150.786 – RQE 72343/72344
Especialista em doenças do intestino grosso, reto e ânus. Atuação em cirurgia colorretal minimamente invasiva com ênfase em procedimentos com evidência científica comprovada.